Já fazia tempo que tinha concebido este blog na minha mente mas o estopim para começá-lo posso dizer que foi a crise de água que assola São Paulo e regiões vizinhas. Ainda que esta situação lamentável nos faça sofrer a todos, não posso deixar de me lembrar de uma frase que me desconcertou a primeira vez que ouvi: “quanto pior, melhor”.
Chegamos a uma tal composição urbana – e a cidade de São Paulo é paradigmática no seu extremismo – que o sistema cedo ou tarde iria colapsar. Por isso quanto pior, melhor. Ou seja, ainda que nos caiba a difícil tarefa de viver essa fase histórica, o colapso se mostrou como única forma para tomarmos novos rumos.
Eu não sei que rumos seguiremos nos próximos anos mas fato é que mudanças ocorrerão. O ser humano tem a incrível capacidade de se recompor depois de grandes destruições. E quando lhe são impostas situações limites, desenvolve uma força que ele mesmo desconhecia.
| Uma rua de Berlim destruída após a Segunda Guerra |
Quando andava pelas ruas da velha Europa, soberba de sua história mais que bimilenar, ereta em seus edifícios organizados e homogêneos, em suas ruas quase sempre limpas e modernizadas, mal podia acreditar que meio século antes quase tudo estava destruído pela guerra.
A Europa se reergueu – como sempre o fez depois de guerras, saques, epidemias – e se reconstruiu. E o exemplo mais surpreendente dos últimos tempos, na minha opinião, foi a própria Alemanha: miserável e humilhada no fim dos anos 40, poucas décadas depois recuperou sua soberania socioeconômica e liderança internacional.
O Brasil praticamente não sabe o que é uma guerra. E devemos nos orgulhar disso porque usar armas não é mais inteligente ou eficaz. Na guerra todos saem perdendo. Mas também é verdade que o Brasil não sabe o que é experimentar uma destruição e ter que reerguer-se: não sofreu ataques destruidores, nem maremotos, terremotos, erupções vulcânicas ou furacões. Vez por outra sofre por inundações localizadas.
Então, essa crise hídrica e energética parece ser a nossa maior desgraça em larga escala. Os Estados mais populosos e mais ricos estão gravemente ameaçados. Há previsões pessimistas e nefastas para o futuro próximo.
Apesar de que esta crise não trará efeitos devastadores em questão de segundos ou minutos, como ocorrem nas grandes desgraças naturais, sua devastação parece ser gradativa: serão dias, semanas e meses de problemas.
| Capa da Revista VEJA de 24 de dezembro de 2014 |
E aqui está a nossa solução: nos problemas. Só mesmo chegando ao fundo do poço – e agora podemos atribuir um sentido até literal à expressão! – poderemos repensar nossa forma de vida.
Nossa vida agora não é mais difícil do que a vida de nossos antepassados. Mas é a vida que nos cabe viver. Como o sofrimento é nosso e não dos outros, temos a tendência a achar que vivemos pior. Mas não é verdade. A crise não é o fim. Estamos vivendo mais um ponto de inflexão na longa História da humanidade...
Veremos.
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