domingo, 1 de fevereiro de 2015

Crises

Não vivemos só uma crise de água ou de energia. Vivemos muito mais do que isso! Vivemos uma crise de honestidade. Vivemos uma crise de educação. Vivemos uma crise cultural. Vivemos uma crise moral. Vivemos uma crise religiosa. Vivemos uma crise de relações. Vivemos uma crise da família. Vivemos uma crise transcendental. Vivemos uma crise política. Vivemos uma crise econômica. Vivemos uma crise de comunicação. Vivemos uma crise filosófica. E a lista poderia ser interminável porque vivemos muitas outras crises sociais e individuais.

Então precisamos nos ater a um fato tão simples quanto desconcertante: a humanidade está sempre em crise. São as crises que movem a história. São as crises que movem a nossa vida. Aliás, cada fase da nossa vida é uma crise. Cada decisão importante é uma crise. Foi por tudo isso que achei que o nome do blog deveria conter a palavra "crise".

Entretanto tenho uma percepção geral de que a palavra crise provoca desconforto e inquietação. Parece que a crise deveria ser afastada rapidamente da nossa proximidade como se enxota a um mosquito chato. Parece que falar muito em crise é dar cabo ao pessimismo... Apesar disso, sempre me incomodou que falar em crise provocasse no outro esses sentimentos porque para mim a crise é sempre uma oportunidade. E eis que um dia, quando arranhava um pouco no estudo dos fundamentos do grego, me deparei com a palavra  κρισις (krisis) que significa "julgamento, juízo, decisão". Pois aí estava, εὕρηκα! (Eureka!). Desde então minha paixão pela palavra "crise" só cresceu.

Desde então, gosto de pensar na crise como a chegada em um bifurcação entre as muitas que encontramos na vida: é um momento de reflexão, de tomada de decisão, de empreender a continuação do caminho que, na verdade, não deixa de ser um novo caminho. A crise é um momento maravilhoso de julgar e decidir sobre uma situação da nossa vida. E isso muda muita coisa...

Nós nos transformamos naquilo que escolhemos. Não há mais do que isso. Minhas escolhas determinam que tipo de pessoa quero ser. Nesse sentido, não há escolhas bobas: escolher estudar ou assistir à TV me muda em algo, me transforma. Escolher ficar com uma pessoa ou não, também me transforma em certos aspectos. Escrevia S. Gregório de Nisa que "somos filhos dos nossos atos". Isso somos mesmo: o ladrão é ladrão porque rouba e o homem virtuoso é virtuoso porque escolhe fazer atos virtuosos.



Portanto, se o Brasil está em crise, se o mundo está em crise ou se nós estamos em crise, estamos diante de uma grande oportunidade. É o momento de um julgamento, de uma decisão, de escolher quem queremos ser, em que queremos nos transformar. Portanto, podemos arriscar  dizer que estar em crise é estar em um belo momento. Difícil momento, é verdade, mas nem por isso menos belo.

Acho que eu devia uma explicação para parte do nome do blog e aqui está. O resto, vai aparecendo aos poucos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A crise da água no Brasil: um ponto de inflexão na História



Já fazia tempo que tinha concebido este blog na minha mente mas o estopim para começá-lo posso dizer que foi a crise de água que assola São Paulo e regiões vizinhas. Ainda que esta situação lamentável nos faça sofrer a todos, não posso deixar de me lembrar de uma frase que me desconcertou a primeira vez que ouvi: “quanto pior, melhor”. 

Chegamos a uma tal composição urbana – e a cidade de São Paulo é paradigmática no seu extremismo – que o sistema cedo ou tarde iria colapsar. Por isso quanto pior, melhor. Ou seja, ainda que nos caiba a difícil tarefa de viver essa fase histórica, o colapso se mostrou como única forma para tomarmos novos rumos. 

Eu não sei que rumos seguiremos nos próximos anos mas fato é que mudanças ocorrerão. O ser humano tem a incrível capacidade de se recompor depois de grandes destruições. E quando lhe são impostas situações limites, desenvolve uma força que ele mesmo desconhecia. 

Image
Uma rua de Berlim destruída após a Segunda Guerra

Quando andava pelas ruas da velha Europa, soberba de sua história mais que bimilenar, ereta em seus edifícios organizados e homogêneos, em suas ruas quase sempre limpas e modernizadas, mal podia acreditar que meio século antes quase tudo estava destruído pela guerra. 

A Europa se reergueu – como sempre o fez depois de guerras, saques, epidemias – e se reconstruiu. E o exemplo mais surpreendente dos últimos tempos, na minha opinião, foi a própria Alemanha: miserável e humilhada no fim dos anos 40, poucas décadas depois recuperou sua soberania socioeconômica e liderança internacional. 

O Brasil praticamente não sabe o que é uma guerra. E devemos nos orgulhar disso porque usar armas não é mais inteligente ou eficaz. Na guerra todos saem perdendo. Mas também é verdade que o Brasil não sabe o que é experimentar uma destruição e ter que reerguer-se: não sofreu ataques destruidores, nem maremotos, terremotos, erupções vulcânicas ou furacões. Vez por outra sofre por inundações localizadas. 

Então, essa crise hídrica e energética parece ser a nossa maior desgraça em larga escala. Os Estados mais populosos e mais ricos estão gravemente ameaçados. Há previsões pessimistas e nefastas para o futuro próximo. 

Apesar de que esta crise não trará efeitos devastadores em questão de segundos ou minutos, como ocorrem nas grandes desgraças naturais, sua devastação parece ser gradativa: serão dias, semanas e meses de problemas. 

Capa da Revista VEJA de 24 de dezembro de 2014
E aqui está a nossa solução: nos problemas. Só mesmo chegando ao fundo do poço – e agora podemos atribuir um sentido até literal à expressão! – poderemos repensar nossa forma de vida. 

Nossa vida agora não é mais difícil do que a vida de nossos antepassados. Mas é a vida que nos cabe viver. Como o sofrimento é nosso e não dos outros, temos a tendência a achar que vivemos pior. Mas não é verdade. A crise não é o fim. Estamos vivendo mais um ponto de inflexão na longa História da humanidade...

Veremos.